segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O último dia...

Encerro hoje este blogue, agradecendo a todos os que o foram seguindo e comentando ao longo destes dois anos (desde 18 de janeiro de 2010) de vida. Outras janelas se abrirão aqui e ali, enquanto houver ventos e mar...

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Para a Maria Lua... [1966-2012]

Há um livro de um escritor de que a Maria gostava muito, chamado Afonso Cruz, que a certa altura diz: “Todos os que vivem morrem mas nem todos os que morrem viveram”.

Estamos aqui não porque a Maria tenha morrido, mas porque ela de facto viveu e viveu intensamente, e deixou uma impressão digital única que conseguiu atravessar a nossa pele e ficar gravada dentro de nós… (e isso não é para todos, não é para todos)

Assim, nesta manhã chuvosa e cinzenta, queria contar-vos uma história com sol e estrelas lá dentro…

Esta é uma história com princípio e sem fim…
É uma história real de uma menina já crescida…


Era uma vez uma menina muito grande e forte por fora e pequena e frágil por dentro.

Era uma vez uma menina que nasceu sem asas, mas que fez da imaginação a sua forma de voar rente às águas e de viajar para o desconhecido.

Era uma vez uma menina que gostava de semear palavras e de colher abraços.

Era uma vez uma menina que ora escondia a tristeza profunda com um sorriso, ora chorava compulsivamente de felicidade.

Era uma vez uma menina que ocupava os seus dias com as “coisas pequenas” (de que fala a música dos Madredeus), com aquelas coisas simples que parecem banais e insignificantes aos olhos dos mais distraídos e superficiais.

Era uma vez uma menina que se escondia nas histórias que contava.

Era uma vez uma menina que se cobria com o manto quente da fantasia para fugir da frieza do mundo.

Era uma vez uma menina que encenava uma voz grossa, sonora, assustadora e teatral para mostrar a sua fragilidade.

Era uma vez uma menina que se procurava dentro dos outros. Dizia frequentemente aos mais próximos e íntimos: “Eu sei que no fundo tu és como eu…”.

Era uma vez uma menina para quem a expressão “estar na moda” era apenas e tão só – e não era nada pouco – sinónimo de maior respeito e atenção pelo ser humano, pela sua dignidade, personalidade e história de vida, e de maior humanização da sociedade.


Era uma vez uma menina cujo oxigénio era a palavra “coração”, talvez a mais “desenhada” pelos seus lábios e a mais inadiável.

Era uma vez uma menina que queria tocar a lua e provar o seu sabor, tal como reza uma história que ela tantas vezes contou e reinventou.

Era uma vez uma menina que queria desnudar a alma humana com a sensibilidade precisa de uma lente fotográfica.

Era uma vez uma menina que se deslumbrava, nos bastidores, com as passerelles da vida e que se assustava com os abismos da morte.

Era uma vez uma menina que tinha vocação para o infinito.

Era uma vez uma menina que gostava de desassossegar e desarrumar a cabeça dos outros e de questionar as convenções e preconceitos estabelecidos.

Era uma vez uma menina que tinha fases como a lua: ora mais cheia de luz, ora mais minguada e escurecida por sombras que não lhe deixavam vislumbrar o sol.

Era uma vez uma menina que valorizava o elogio e sofria quando criticava.

Era uma vez uma menina cujo corpo parecia atravessado por aquela secreta energia que faz florescer as plantas, que empurra as marés e que liga o ser humano aos astros.


Era uma vez uma menina que queria descobrir o comprimento de um sorriso, a cor de um silêncio, o perfume de um rio, mesmo sabendo que há coisas que não são para se descobrir.

Era uma vez uma menina que sentipensava a vida intensamente, de todas as maneiras e com todos os poros da sua pele, até à exaustão do ser.

Era uma vez uma menina que era de carne e osso e que, por isso, também desesperava com a hipocrisia e indiferença do mundo.

Era uma vez uma menina que acendia um cigarro sempre que a vida lhe parecia mais cinzenta, para que o fumo não a deixasse encarar a dolorosa realidade.

Era uma vez uma menina que matava a sua sede nos acordes de uma melodia tocante ou nos silêncios preciosos que a música nos oferece.

Era uma vez uma menina que se fascinava pelos segredos imprevistos que uma caixa, uma mala ou um baú por abrir podem encerrar (não fosse o coração essa grande caixa sem fundo…).

Era uma vez uma menina que tinha a profissão mais importante do mundo: Brincadora.

Era uma vez uma menina que usava os contos para espalhar a magia da doença suprema: o sonho (que devia comandar a vida).

Era uma vez uma menina que, felizmente, não conseguiria viver num mundo onde taxassem os sonhos e as liberdades.


Era uma vez uma menina que muitas vezes se sentia só e incompreendida no meio da multidão que a aplaudia.

Era uma vez uma menina eterna e ternamente inadaptada e desajustada, que não cabia nos estreitos e sinuosos limites impostos por este mundo. Já este ano, confessava no seu blogue “Estórias da Lua”: “Ora a crescer, ora a diminuir, nunca me sinto com o tamanho certo…”.

Era uma vez uma menina cujos verbos preferidos eram: “ser”, “estar” e “sentir”.

Era uma vez uma menina para quem a memória era essa dádiva maravilhosa que faria de todos os seres humanos contadores de histórias até ao fim dos tempos.

Era uma vez uma menina diferente mas normal.

Era uma vez uma menina para quem cada dia era uma nova e imperdível oportunidade de ser feliz e de escolher livremente um caminho.

Era uma vez uma menina que preferia as pessoas às estatísticas.

Era uma vez uma menina inconformada, que se indignava com a apatia e acomodação da sociedade. No último post do seu blogue, escrito a 19 de setembro deste ano e intitulado “Do fundo do poço”, citava Miguel Torga:
É um fenómeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto. Falta-lhe o romantismo cívico da agressão. Somos, socialmente, uma coletividade pacífica de revoltados.

Era uma vez uma menina com a cabeça na lua mas com uma distração terrivelmente atenta em relação ao que a rodeava.


Era uma vez uma menina que precisava de se perder dentro de si para se reencontrar e… sobreviver.

Era uma vez uma menina que guardava consigo frases eternas como estas: “Tudo o que não se pode dar perde-se”; “Tudo o que se consegue imaginar é real”; “Acredito na força das coisas frágeis”; “Pão para a boca, histórias para a alma”; “O vento não te levará a lugar nenhum se não souberes onde queres ir”.

Era uma vez uma menina modesta, mas triste pela indiferença revelada pelos outros.

Era uma vez uma menina que gritava bem alto as palavras “auto-estima” e “cuidar”, mas que punha os outros em primeiro lugar.

Era uma vez uma menina contraditória e instável, como qualquer ser humano sem máscaras ou subterfúgios que tem de balançar na corda bamba da vida.

Era uma vez uma menina apanhada pela teia do pessimismo e do desencanto, que a fazia duvidar de si e do mundo.

Era uma vez uma menina impulsiva, uma mente-turbilhão que ansiava diariamente pelo amanhã.

Era uma vez uma menina que preferia cair, não em sensatez, mas no feitiço das palavras.

Era uma vez uma menina que gostava de levar livros para a cama.

Era uma vez uma menina cuja lucidez e consciência traziam-lhe um misto irracional de alegria e de dor.


Era uma vez uma menina supersticiosa e influenciável, uma “esponja” de emoções.

Era uma vez uma menina fascinada pelo ilusionismo poético de quem transforma os maus momentos em sorrisos e alegrias.

Era uma vez uma menina discreta que não passava despercebida porque havia uma rara “verdade natural” em cada gesto seu.

Era uma vez uma menina para quem um ser humano não era preto nem branco, alegre ou triste, simples ou complicado, mas sim um esplendoroso arco-íris.

Era uma vez uma menina que, embora consciente da utopia de um mundo melhor, mais sensível e solidário, comportava-se no seu dia-a-dia como se isso fosse possível.

Era uma vez uma menina que sonhava ser o vento que passa mansamente nas árvores e fala na boca de todos os pássaros.

Era uma vez uma menina que acreditava que no céu há bibliotecas e se pode ler e escrever.

Vitória, vitória, não acabou a história…
Esta história não acaba assim...
Esta história não acaba aqui…

Muito mais importante do que o fim de uma história, o desenlace ou a paragem derradeira, é o caminho que se percorre até lá e o sentido dessa caminhada…
No futuro, muitos hão-de recordar-se da sua morte e das circunstâncias em que tudo aconteceu; eu prefiro recordar-me da sua vida e da forma como a viveu e se deu incondicionalmente aos outros…

O amigo e colega
Paulo Pires
Biblioteca Municipal de Silves
24 de outubro de 2012

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Curso breve de nova literatura em Tavira

No próximo dia 20 de outubro, sábado, vou apresentar mais um curso breve de nova literatura portuguesa (1990-2012), desta vez na Biblioteca Municipal Álvaro de Campos, em Tavira.
Este formato dirige-se sobretudo a profissionais de bibliotecas, escolas e outros contextos culturais, os quais pretendam atualizar conhecimentos ao nível de autores, textos, temas da nova poesia e da microficção produzidas em Portugal, bem como em termos de estratégias de promoção/mediação de leitura com os públicos jovem e adulto.
As inscrições encontram-se abertas, tendo um custo associado de 25 euros por pessoa, com direito a certificado final. O formato será intensivo (8 horas), com pausas para almoço e café/lanche.

O curso só será realizado se houver um mínimo de 15 participantes.
Podem inscrever-se pelos telefones 281320585/576 ou pelo email
biblioteca@cm-tavira.pt  

Revisitando a História...

Em vésperas da comemoração de mais um aniversário do 5 de outubro - e num período em que é urgente a esperança e o otimismo relativamente ao futuro individual e coletivo -, gostava de relembrar aqui uma frase do jornalista, escritor e político João Chagas [1863-1925], da qual gosto particularmente, retirada do seu Diário: "Vou deitar-me e a perspetiva feliz do dia de amanhã talvez me tire o sono..."

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Palavras intemporais

Queria partilhar as palavras de um historiador e grande comunicador português chamado José Hermano Saraiva, que um dia, questionado sobre o futuro de Portugal, afirmou simplesmente isto, num momento de rara beleza, sensibilidade e lucidez: 
"Seja o que for, o certo é que continuará a haver noites de luar, a serra de Sintra e o Tejo continuará a desaguar no mar..." 
Não quero escrever mais nada e deixar apenas o silêncio interior falar por si...

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Ainda a propósito da microficção

Aproxima-se, a passos largos, o encontro "Palavras Andarilhas" e partilho aqui duas sugestões para os mais interessados na temática que vou abordar em Beja: um link para um interessante artigo de David Gaffney no The Guardian, intitulado "Stories in your pocket: how to write flash fiction", e outro link para uma entrevista com o editor, escritor e consultor cultural brasileiro Carlos Seabra, que desde há vários anos divulga a escrita microficcional por terras do Brasil. Juntei também o endereço da página pessoal de Carlos Seabra.

http://www.guardian.co.uk/books/2012/may/14/how-to-write-flash-fiction?CMP=twt_gu

http://www.youtube.com/watch?v=h8bi_VUJSo8 

http://www.seabra.com/ 

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Não fui breve porque não tive tempo...

Já se encontram disponíveis online as sinopses das várias oficinas que vão decorrer durante as Palavras Andarilhas deste ano em Beja: http://www.palavrasandarilhas.org/ (ver Programa)

O autor deste blogue irá apresentar nas manhãs dos dias 31 de agosto e 1 de setembro uma oficina de 6 horas intitulada "Não fui breve porque não tive tempo": a microfição como nova estratégia de escrita e leitura/narração. Segue-se a sinopse:

O tempo atual vive muito da fragmentação, do formato portátil, do subentendido, da brevidade/concisão, da elipse, da hibridez e contaminação, da velocidade, da primazia da internet e da escrita digital...
É esse o terreno (plural) por excelência da microficção, feita deste melting pot: experimentação, polissemia, transgressão da convenção, reescrita, reciclagem, ironia, nonsense, humor, paródia, jogo linguístico, ambiguidade semântica, lógica desviante /incomum, diálogo intertextual e metaficção.
A narrativa breve surge como uma espécie de poliedro irregular que procura aliar o rigor verbal do poeta à capacidade de síntese do aforista, instaurando-se como o género mais didático, lúdico, irónico e fronteiriço da literatura, mas também como uma espécie de “antivírus” da mesma, quer ainda como textualidade que se enriquece e reinventa a cada nova leitura (interpretativa).
Uma das soluções para o problema da iliteracia pode passar precisamente pela microficção, pois as pessoas podem ler facilmente duas ou três histórias nos transportes públicos e/ou difundi-las por telemóvel, através de sms’s, ou pela internet, através de e-mails, blogues ou redes sociais.
Breve curso livre sobre a escrita microficional, suas características essenciais, autores e textos mais marcantes, principais tipologias, técnicas de construção e estratégias discursivas, benefícios e ainda aplicações práticas ao nível da promoção e mediação da leitura com os públicos jovem e adulto.